domingo, 15 de fevereiro de 2026

Memórias de nós dois - IV

O ano dessa foto foi 1972 ou 1973. Não sei que local é esse, mas era em Juazeiro do Norte.

 A gente queria muito ter um filho e eu não conseguia engravidar. Foram 32 decepções  até engravidar de Andrea,  nossa primeira filha.


À medida que o salário dele aumentava, a gente mudava de casa, e foi na terceira que fiquei grávida pela primeira vez. Um sonho realizado. Jevan comprou uma malinha pra colocar o enxoval, uma redinha e tudo mais necessário para a chegada dela. Tinha dia que eu colocava tudo na cama e ficava sonhando.  A gravidez transcorreu sem problemas. Engordei, mas eu era muito magrinha, não seria esse o problema.

Quando senti as primeiras contrações fomos para o hospital. Depois dos exames me voltaram pra casa, pois não tinha dilatação suficiente. Fiquei em casa até não aguentar mais e fui novamente. Dessa vez me internaram e e eu fiquei até meia noite sentindo contrações. Faziam o exame e nada da dilatação, então, de repente passou tudo e eu adormeci. Algum tempo depois, por volta de 1h da manhã, fui acordada pra ir para a sala de parto. Lembro que falei que não sentia mais contrações e a enfermeira dizer que iam induzir o parto.

Se eu quisesse enganar a mim mesma, pulava essa parte. Foi terrível. Por mais que eles puxassem com fórceps e outra empurrasse minha barriga, não havia progresso.

Comecei a ouvir coisas, promessas com santos, outra dizendo que precisava de uma cesariana, mas não tinha auxiliar e o médico falando que fazia a cessariana  só,  mas o problema era que não tinha anestesista. Em determinado momento vivi o pior de todos os pesadelos. O médico achou que a cabeça dela devia ser grande demais e queria secar. Eu fiquei louca, pedindo pelo amor de Deus que me deixasse morrer também.

Aí, aquela história, salvar a vida da mãe, mas Deus é bom e não precisou. Ela nasceu, sem chorar e roxinha. Levaram para colocar no oxigênio e eu fiquei sabendo que ela era perfeita. Não tinha problema nenhum. Pesava 3,5kg e 50cm de comprimento. O problema foi a falta da cesariana. Foi a incompetência do hospital e do médico. E as 32 horas de espera, com contrações, até me arrancarem ela de qualquer jeito. Tiveram o dia inteiro e a noite pra providenciar o parto e nada foi feito.

Às 5 da manhã pedi pra ver e me trouxeram, a coisa mais linda, mas pálida e suspirando entre um choro e outro. Foi a única vez que vi minha filha. Às 8h ela morreu.

Daí em diante foi tudo muito triste. Minha família não sabia de nada, pois eu só queria dizer depois que nascesse, pra ninguém sofrer. Fiz esse mal a Jevan, que teve que passar por tudo só. Nunca me perdoarei pelo sofrimento dele. Sem contar que, se eu tivesse morrido, como ele ia explicar aos meus pais e 12 irmãos o porque de estarmos sós no hospital. Tremo só de pensar.

Fiquei no quarto e ele comigo. Entrava no banheiro, ficava um pouco e quando voltava, me sorria, me confortava. Pensava que eu não percebia os olhos vermelhos.Meus irmãos começaram a chegar e ele pedia pra sair um pouco. Foi para a casa de uma grande amiga e chorou como uma criança e só voltou quando sentiu que já podia. Ele pensava em mim, como sempre.

Tereza, minha irmã, foi com ele fazer o sepultamento. Soube depois que colocaram o caixão na cova e logo na primeira pá de terra, entrou alguma para o rostinho e ele pediu para parar, limpou e o homem pode continuar.

Não  tenho dúvida de que Jevan sofreu mais do que eu. Muito mais. Mas era sadio e superou e eu levei um tempão deprimida. Sofri também, cada um do seu jeito.

Chegou o dia de voltar para casa. A gente ainda não tinha carro. Pegamos um táxi e lá fomos. Nossa rua era de um quarteirão só entre duas ruas e, quando entramos nela, em quase todas as casas tinham pessoas esperando pra me ver chegar sem a criança. Aí sim, foi o pior momento. Desci, não cumprimentei ninguém e fui direto para o meu quarto. É uma sensação terrível sair grávida e voltar de mãos vazias.

Ainda no hospital pedi a uma amiga  que  guardasse bem escondia a malinha e tudo que pudesse me lembrar dela. Só que a minha mãe tinha me visitado há poucos  dias e trouxe uma caixa de sabão em pó, com um brinde de amaciante. E ela falou que era pra lavar as primeiras fraldas. A minha amiga não ligou sabão a enxoval de criança e deixou lá, em cima de uma mesinha.

Esse foi o momento que chorei. Chorei copiosamente, desesperadamente. E quando o choro passou, saí procurando a malinha e tudo o mais. Coloquei tudo no seu lugar e, durante muitos dias e arrumei e desarrumei coisa por coisa. Até aceitar que não iria usar.

E guardei essa lição: É melhor enfrentar!

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