domingo, 15 de fevereiro de 2026

Cedro antigo


Não sei exatamente o ano dessa foto, a cidade era como ela quando começamos a namorar. Que saudade!


A diversão da nossa cidade eram as passagens de trens e foi numa delas que o vi pela primeira vez. Graça Moreira falou com ele e eu tive oportunidade de conhecer ligeiramente. Era como se um ímã me atraísse para ele.

De noitinha fui à casa da minha avó e passando pela praça vi os dois num banco. Fiquei triste, mas lembrei que tinha percebido que ele tinha espinhas. Era melhor assim. No entanto foi a última vez que eles se encontraram. Acabou o namoro.

Dias depois, estando em casa de Graça Moreira, ele passou com um violão e eu paguei o mico de perguntar uma besteira, só pra ter um motivo de conversar com ele. Acho que perguntei se tocava se ele não apertasse a corda, sei lá. Depois, bem depois, ele disse que me achou bem tolinha.

Estou contando pelo meu lado, mas antes disso, aconteceu um fato interessante. Ele ainda não me conhecia e um dia, vindo da manicure, passaram por mim Graça Teixeira e ele, estudantes do SENAI, que vinham com umas palhas de coco pra enfeitar uma barraca. Ela conta que ele falou: - Quem é essa menina? Adimirada ela disse: - Você não conhece Regina de Manoel Costa? E ele respondeu que não, mas que iria casar comigo. Ela riu e ele falou sério: - Se não for com ela, não caso com ninguém.

Anos depois, nos encontramos no BEC de Juazeiro do Norte e ela, também funcionária de outra cidade, contou para o gerente essa história. Virou uma lenda!

Quando nos aproximamos, criamos uma amizade que até me admiro do meu pai só ter percebido o exagero, um ano depois. Durante esse ano, Jevan e eu andávamos pra todo lugar, não nos desgrudávamos. 

Lembro que houve uma vaquejada em Cedro e eu queria ir ver, mas amanheci com cólicas e e não ia poder ir. Quando ele chegou pra me pegar, eu estava sentada encostada em um poste de luz, com um canivete "brincando" de furar o braço, que já tinha inúmeros furos sangrando. Ele entrou (nesse tempo ainda podia) e falou pra minha mãe. Como num passe de mágica  meu pai chegou com uma seringa e me colocou pra dormir.

Assim foi para Jevan: Arrastar uma semi louca que tinha tido meningite aos dois meses e há apenas 3 anos ainda tinha duas convulsões por dia, era depressiva e hoje sei, bipolar.

Mas aqui confesso: Ele foi para mim TUDO! Me entendia, parecia sentir o que eu sentia e manifestou um dom de, com um sorriso, conseguir colocar outro no meu rosto, ou, com um simples afago, enxugar as minhas lágrimas.

Foi depois desse primeiro ano que meu pai resolveu que estava demais e mandou que eu me afastasse dele. Quase morro. Liguei pra ele e contei. Então ele falou: E agora, como fica? E perguntou se eu queria namorar com ele. E eu achava que já éramos namorados. Ele era tão criança que estava preparando  uma "declaração" e até tinha lido umas dicas num livro. A partir daí, namoramos oficialmente e separadamente.

Meu pai não aceitava saber que ainda andávamos juntos e colocou meus irmãos pra me vigiar. E meia cidade, para agradá-lo, também contava pra ele que nos viam juntos.

Dos meus irmãos, apenas Lininha e Tarciso eram meus cúmplice. Fiz um bolso interno na saia dela, do colégio e era por esse bolso que eu mandava e recebia nossas cartinhas. Ficávamos as vezes até dois meses sem nos falarmos pessoalmente, e por isso o namoro terminava tanto. Ele podia sair, ir dançar no clube com as nossas amigas e eu, presa em casa.

Quando a gente conseguia se encontrar, era como se o céu tivesse descido. Nunca tive tanta emoção na minha vida e de todo jeito eu conseguia uma pequena oportunidade de estar perto dele. Nunca fui de dançar, mas inventei de participar de uma quadrilha de São João, só pra pegar na mão dele, naquela parte que uns vão passando us pelos outros.

Fugia também para o arredores, inventava um trabalho escolar e íamos passear. Graça Moreira era nossa cúmplice e ia conosco, pra ver se alguém se aproximava. Era nossa única amiga.

Inventava também de ir para o Colégio de noite com Lininha, que ninguém sabia que me acobertava, e ela ficava por lá enquanto a gente namorava. Foi num dia desses, quando eu já tinha 15 anos que demos o primeiro beijo. E eu não sabia como era! Mas nunca esqueci o local. Foi encostados numa lousa inutilizada e na porta de entrada, bem escondidos mesmo, que nos beijamos.

Acabei da saber, naquele momento, que eu não viveria mais sem ele.

Ao meio dia, antes do colégio, a gente passava pelo sindicato dos trabalhadores, onde havia uma sala para os estudantes. A gente subia para o outro andar e depois de tanto tempo o namora já não tinha nada de inocente. Hoje penso até que devia ter aproveitado mais. Éramos um do outro, separados por uma intolerância que nos causou tanto sofrimento.

O tempo foi passando, Jevan veio estudar no mesmo colégio e tivemos mais oportunidade de nos ver, mesmo de longe.

Certa vez pedi ao meu pai pra ir para  a Semana Universitária de Várzea Alegre, prometendo que o namoro estava acabado. Passamos a noite inteira dançando no meio do pessoal pra ninguém conhecido nos ver, mas o inimigo estava na nossa própria casa. Helena, minha tia, não ligava que a gente namorasse, mas comentou isso em casa e outra tia, no mesmo dia, contou ao meu pai.

Chegando enfadada, deitei numa rede pra dormir um pouco, quando acordei com meu pai quase me jogando fora da rede, gritando que eu tinha feito ele de corno, que o tinha enganado. Isso já era o ano de 1977, ou seja 3 anos de sofrimento. Eu falei que tinha mesmo dançado com ele. Foi a vez que andei mais perto de levar uma surra, o que nunca aconteceu. Ele voltou pra farmácia e eu fiquei encolhida na rede, curtindo minha dor.

Em Cedro tinha um club, único, que quando dava, eu aparecia por lá e, como eram raras essas oportunidades, a gente aproveitava pra namorar de verdade. E essa acabou sendo a solução. Um diretor do clube fez reclamação para Lourival e ele resolveu intervir.

Lourival Pereira era um rapaz que morava conosco e por quem papai tinha imensa consideração. Nesse dia ele resolveu interferir e usou bons argumentos, entre eles a possibilidade de que a gente fugisse, moda da época, ou que eu aparecesse grávida, coisa bem possível. E meu pai volta. Aí foi mesmo um passe de mágica. Há poucos minutos o mundo desabava em minha cabeça e agora ele me liberava pra namorar até em casa.

Mandei um recado pra Jevan e de noitinha fomos passear na praça da Matriz, de mãos dadas. Todo mundo nas calçadas, pasmos, e um senhor amigo do meu pai vestiu paletó e foi na minha casa alertar meu pai.

O sofrimento teoricamente acabou, mas ele nunca aceitou de verdade o namoro e alguns irmãos incentivavam também. Pelo menos a gente podia ficar juntos.

Memória de nós dois I

  Essa é  a foto mais antiga de nós dois.   Foi feita por Graça Moreira,  por volta de 1965.


Conheci Jevan no início dos anos 60. Ele com 13 anos e eu com 14. Em cedro tinha um único estúdio fotográfico, de Antonio Vieira, homem de muita paciência com os adolescentes. A gente chegava por lá e era uma festa, também porque ele tinha um filho da mesma idade, grande amigo.

Por lá tinha uma enorme caixa onde Antônio Vieira colocava os descartes e Graças Moreira e eu, adorávamos revirar essa caixa pra encontrar negativos nossos, fotos de amigos, enfim, era um tesouro!

E foi assim que achei uma foto de Jevan, entre dois amigos conhecidos, então perguntei quem era o outro e ela se admirou que eu não o conhecesse, sendo filho de Raimundo Silva e Dona Irene. Essa eu conhecia desde criança quando ela vinha da igreja com os filhos e parava na casa de Pedro Mourão, nosso vizinho para cumprimentar a prima, dona da casa. Conhecia toda a família, mas não conhecia Jevan.

Guardei o retratinho pra mim e fiquei perguntando por ele. Estava viajando e eu ansiosa que ele voltasse. Apesar de quase menino, tinha uma namorada e eu fui "bem falsa" com ela. Alimentei o desejo de conhecê-lo de qualquer forma.

Memórias de Nós dois. Parte II

 


 Esse era o Clube Recreativo Cedrense. Foi nele que eu vi Jevan  dançando  com uma amiga.


Continua 1967 e nós, sempre  firmes. Amadurecemos. Jevan já não escutava quando um amigo dizia que levaria a gente pra fugir e casar. O interesse agora era conseguir emprego, alguma renda que nos possibilitasse tocar a vida juntos. Ele trabalhava no Serviço de Auto Falantes da cidade e na calçada das Lojas Pernambucanas, como propagandista. Mas juntando tudo, não dava nem para sonhar com nada. Dessa forma passamos o ano. Levei o namoro muito a sério e ele tbm. Já não tinha o problema de ficar presa e ele solto, e era só felicidade. Sofrimento também, pois meus problemas de saúde continuavam os mesmos. Por nada eu passava mal, ficava de mal humor,  como já contei anteriormente. E assim, não caminhamos juntos, ele me arrastou pela vida.

Nunca entendi até hoje o porque dele saber o que eu sentia. Meu Pai me ameaçou até de me bater se eu não contasse o que era, isso no tempo das convulções. Era o desespero. Nunca nos bateu. Mas Jevan, só bastava olhar pra mim pra saber que eu estava em grande sofrimento. Devo dizer que, nem eu mesmo sabeia relatar o que sentia. Depois que passava, não conseguia lembrar como era e, se conseguisse, sentia novamente. Então era melhor nem pensar.

A minha Mãe, com seus 13 filhos e uma luta sem fim, sequer tomava conhecimento do meu sofrimento. Algumas vezes cheguei perto dela e falei que estava me sentindo mal, que tinha uma enorme confusão na minha cabeça e ela simplesmente dizia: -Isso é falta do que fazer, minha filha. Procure alguma coisa pra fazer que você esquece isso.

Enquanto isso, Jevan me confortava, aliviava minhas dores e conseguia me fazer feliz.

Mas não durou muito e meu pai começou a incentivar que ele fosse para o São Paulo, procurar trabalho, ou Fortaleza. E nós acabamos concordando. Em 1968, ele tinha 17 anos. Já namorávamos há 4 anos, tínhamos uma enorme intimidade e afinidade. Ele era pra mim muito mais dos que minha família e, de repente, estou só. Jamais esquecerei o dia em que ele partiu para Fortaleza. Lembro que, abraçada a ele pedi que que me prometesse jamais passar mais que 15 dias longe de mim e ele prometeu. E cumpre até hoje.

Foi muito sofrimento. A distância, o medo dele me esquecer, ou de se envolver com alguém e tivesse que casar. (Aconteceu com um amigo, e virou meu pesadelo). E para ele, foi pior ainda, pois os empregos que conseguia arranjar não valiam grande coisa. Chegou até a ser vendedor de livro. E a cada 15 dias, dormia num banco da estação de trens, pra não perder a hora pra vir me ver.

Todo dia no horário do trem, à tardinha, eu ficava na varanda da minha casa olhando. Eram poucos metros, dava pra ver quem descia e eu, na minha louca saudade, ficava imaginando que ele já ia descer. Até que o trem partia. Chorei muito nesses momentos. Em alguns dias, nessa mesma varanda eu ficava olhando os casais de namorados que passavam para a casa do nosso amigo Gláuber Alves, onde aconteciam umas tertúlias. Sonhava também que ele chegava já pra gente ir, embora eu não gostasse de festa.

Em 1969 ele já trabalhava em rádio e, num programa de calouros ganhou o primeiro lugar, concorrendo com Alcimar Monteiro. Ficou conhecido e foi convidado para ser locutor em Iguatú, numa rádio do mesmo grupo. Não era nada que desse pra arrumar nossa vida, foi nos colocou próximos novamente e o mundo virou um mar de rosas. A gente fingia que era solução, mas sabíamos que não era.

Em 1970 o mundo virou de ponta cabeça novamente. Meu pai teve dificuldades nos empreendimentos e tivemos que morar em Crato. Ele era Auditor Fiscal da Receita Estadual e estava há muitos anos afastado, sem vencimentos, por ser vereador. Assumiu o emprego, e lá vamos nós para o Crato, enquanto Jevan ficava em Iguatu.

Pelo menos nossa promessa de ficarmos juntos a cada 15 dias, se manteve, aliás, passou para semanal e a pressão familiar aumentou. Nunca pensei que ainda teria tanto pra chorar. Eles fingiam que aceitavam, mas eu sempre sabia de uma coisa ou outra que me machucava o coração.

Ainda em 1970, no final do ano Jevan foi convidado para trabalhar na Rádio Progresso de Juazeiro. Em seguida acumulou com o BIC BANCO e ficou com dois empregos e, finalmente conseguimos nos organizar para casar. Lininha casou 6 meses antes de nós e, na véspera do casamento dela, ela entrou chorando pra me contar que meu Pai estava dizendo para o namorado dela, que tinha que se conformar com o nosso casamento.

Lamento tanto colocar isso, mas aconteceu!

Memórias de Nós dois III

                         Que pena, tão velhinha a foto. É de 1973, no dia do radialista, Jevan recebendo um presente. 


Daqui pra frente foi só sonho! Realizamos tudo. Casamos, tivemos lua de mel e de lá já voltamos para a nossa casinha alugada. De tudo tinha e a gente só devia a última parcela do guarda roupa, que Jevan pagou cantando no Carnaval de Araripina.

Por esse tempo eu nem sabia ainda que tinha tirado a sorte grande! Casei com um homem rigorosamente controlado nas finanças. Recebia o salário e repartia por semana. Tinha uma listinha de tudo que a gente gastava. Tempos depois, quando tudo já era  bom financeiramente e a gente não precisava de listinhas, e eu lembrava que, até o gás estava nela.

Um mês tinha 4 semans e outro 5. No de quatro, a gente "passava bem". No de 5, apertava o cinto. Mas foram momentos emocionantes, felizes demais. Chego até a duvidar que alguém possa ter sido mais feliz num casamento do que eu, embora a gente só tenha tida a primeira geladeira com um ano de casados e o primeiro televisor, com dois.

Todo mundo se admirava da minha adaptação a essa vida. Nunca usei enceradeira de ninguém, nem pedi pra guardar uma carne em geladeira de vizinho,  ou qualquer outra coisa. Mas era feliz. Super, Super feliz.

Como na "vida real", meu conto de fadas teve uns distúrbios no primeiro mês. Eu tinha pavor de morcego e, era só Jevan sair que entrava um. Em plena manhã, e ficava dando voltas na casa e tirando de raspão em mim. O choro começou por isso. Mas tinha também o problema de eu nunca ter tido responsabilidades de casa. Muito mal sabia fazer um arroz. Pensei que na minha casa podia ter tudo e compramos uma galinhas e  uns pássaros. Para economizar o gás, cozinhava o feijão no carvão todo dia. Sem contar que queria varrer a casa, etc.

Quando amanhecia o dia eu não sabia por onde começar, pelas galinhas que viviam num espaço de cimento, pelos pássaros com suas gaiolas pra trocar tudo, se acendia o fogão pra colocar o feijão, ou se morria de tanta agonia.

Depois de 30 dias chorando, Jevan foi no SANDU e pediu para falar com um médico. Naquele tempo, como hoje, era difícil, e o desespero dele era tão grande que ele fez um escândalo e um médico falou, manda esse louco entrar. Perguntado o motivo Jevan falou que a esposa tinha aberto o botão do choro e ele não sabia onde apertar. Voltou pra casa com uma receita de calmante e a decisão de se desfazer dos desnecessários da casa.

Aqui vem uma coisa engraçada. Jevan tinha uma madrinha e pediu pra ela ficar com nossas galinhas e a gente pegaria uma por semana até acabar. Sempre que ele chegava ela falava que uma mesa tinha quebrado e matado uma. Noutra semana, outra e assim, nosso problema acabou rapidinho!

Moramos 5 meses nessa primeira casa e aconteciam coisas estranhas. Prefiro não entrar em detalhes, mas a casa era barulhenta. Até que um dia minha vizinha me pegou na calçada e perguntou se eu nunca tinha visto nada na casa. Como assim? Me fiz de desentendida. Meio temerosa ela disse que naquela casa ninguém passava tanto tempo como nós, mesmo sendo 5 meses, por causas de coisas estranhas que aconteciam.

Já esperei Jevan na calçada e quando  contei, ele deu a volta na bicicleta e foi procurar outra. Com dois dias nos mudamos para o Bairro do Socorro, praticamente no centro da cidade. Uma casinha pequenina mas moderna, confortável. Amei os dois anos que vivemos nela.

Foto mais antiga


 Essa é a foto mais antiga que tenho, acho que com no máximo um ano e meio. Quem me conduz é minha tia Margarida, que a gente chamava de Boída. Quando em 1955 meus avós foram morar em Cedro, me levaram com eles, pra facilitar o tratamento das convulsões que eu tinha. Morávamos além dos meus avós, minha tias Neném (Eliane), Margarida, Marilene e Helena. Meu tio Zé Costa tbm. Rita estudava no Crato. Passei dois anos com eles até meus pais virem também morar em Cedro. Nesses dois anos elas me ensinaram muitas coisas. Fui pra primeira escola, onde Neném era professora.


Aprendi as rezas e fiz primeira comunhão, vestida de anjo. Lembro de ter vindo com ela, Boída, no caminho da Igreja com o vento quase me arrastando. Depois, com essa mesma indumentária ainda fiquei no altar e foi preciso sair antes da hora, pois eu estava quase desmaiando. rsrsrsrs Boas lembranças.

Não perseverei na Igreja Católica. Em 1958 fui fazer a confissão e o padre me fez perguntas que me traumatizaram. Não entro em detalhes, mas desde então ainda fui uma vez e aos 14 anos dei meu grito de liberdade. Nunca mais pisei lá, a não ser socialmente.

Em 1970 comecei a frequentar a Igreja Presbiteriano, onde fiquei por 30 anos. Hoje frequento um Ministério perto da minha casa. Sou crente.

Memórias de nós dois - IV

O ano dessa foto foi 1972 ou 1973. Não sei que local é esse, mas era em Juazeiro do Norte.

 A gente queria muito ter um filho e eu não conseguia engravidar. Foram 32 decepções  até engravidar de Andrea,  nossa primeira filha.


À medida que o salário dele aumentava, a gente mudava de casa, e foi na terceira que fiquei grávida pela primeira vez. Um sonho realizado. Jevan comprou uma malinha pra colocar o enxoval, uma redinha e tudo mais necessário para a chegada dela. Tinha dia que eu colocava tudo na cama e ficava sonhando.  A gravidez transcorreu sem problemas. Engordei, mas eu era muito magrinha, não seria esse o problema.

Quando senti as primeiras contrações fomos para o hospital. Depois dos exames me voltaram pra casa, pois não tinha dilatação suficiente. Fiquei em casa até não aguentar mais e fui novamente. Dessa vez me internaram e e eu fiquei até meia noite sentindo contrações. Faziam o exame e nada da dilatação, então, de repente passou tudo e eu adormeci. Algum tempo depois, por volta de 1h da manhã, fui acordada pra ir para a sala de parto. Lembro que falei que não sentia mais contrações e a enfermeira dizer que iam induzir o parto.

Se eu quisesse enganar a mim mesma, pulava essa parte. Foi terrível. Por mais que eles puxassem com fórceps e outra empurrasse minha barriga, não havia progresso.

Comecei a ouvir coisas, promessas com santos, outra dizendo que precisava de uma cesariana, mas não tinha auxiliar e o médico falando que fazia a cessariana  só,  mas o problema era que não tinha anestesista. Em determinado momento vivi o pior de todos os pesadelos. O médico achou que a cabeça dela devia ser grande demais e queria secar. Eu fiquei louca, pedindo pelo amor de Deus que me deixasse morrer também.

Aí, aquela história, salvar a vida da mãe, mas Deus é bom e não precisou. Ela nasceu, sem chorar e roxinha. Levaram para colocar no oxigênio e eu fiquei sabendo que ela era perfeita. Não tinha problema nenhum. Pesava 3,5kg e 50cm de comprimento. O problema foi a falta da cesariana. Foi a incompetência do hospital e do médico. E as 32 horas de espera, com contrações, até me arrancarem ela de qualquer jeito. Tiveram o dia inteiro e a noite pra providenciar o parto e nada foi feito.

Às 5 da manhã pedi pra ver e me trouxeram, a coisa mais linda, mas pálida e suspirando entre um choro e outro. Foi a única vez que vi minha filha. Às 8h ela morreu.

Daí em diante foi tudo muito triste. Minha família não sabia de nada, pois eu só queria dizer depois que nascesse, pra ninguém sofrer. Fiz esse mal a Jevan, que teve que passar por tudo só. Nunca me perdoarei pelo sofrimento dele. Sem contar que, se eu tivesse morrido, como ele ia explicar aos meus pais e 12 irmãos o porque de estarmos sós no hospital. Tremo só de pensar.

Fiquei no quarto e ele comigo. Entrava no banheiro, ficava um pouco e quando voltava, me sorria, me confortava. Pensava que eu não percebia os olhos vermelhos.Meus irmãos começaram a chegar e ele pedia pra sair um pouco. Foi para a casa de uma grande amiga e chorou como uma criança e só voltou quando sentiu que já podia. Ele pensava em mim, como sempre.

Tereza, minha irmã, foi com ele fazer o sepultamento. Soube depois que colocaram o caixão na cova e logo na primeira pá de terra, entrou alguma para o rostinho e ele pediu para parar, limpou e o homem pode continuar.

Não  tenho dúvida de que Jevan sofreu mais do que eu. Muito mais. Mas era sadio e superou e eu levei um tempão deprimida. Sofri também, cada um do seu jeito.

Chegou o dia de voltar para casa. A gente ainda não tinha carro. Pegamos um táxi e lá fomos. Nossa rua era de um quarteirão só entre duas ruas e, quando entramos nela, em quase todas as casas tinham pessoas esperando pra me ver chegar sem a criança. Aí sim, foi o pior momento. Desci, não cumprimentei ninguém e fui direto para o meu quarto. É uma sensação terrível sair grávida e voltar de mãos vazias.

Ainda no hospital pedi a uma amiga  que  guardasse bem escondia a malinha e tudo que pudesse me lembrar dela. Só que a minha mãe tinha me visitado há poucos  dias e trouxe uma caixa de sabão em pó, com um brinde de amaciante. E ela falou que era pra lavar as primeiras fraldas. A minha amiga não ligou sabão a enxoval de criança e deixou lá, em cima de uma mesinha.

Esse foi o momento que chorei. Chorei copiosamente, desesperadamente. E quando o choro passou, saí procurando a malinha e tudo o mais. Coloquei tudo no seu lugar e, durante muitos dias e arrumei e desarrumei coisa por coisa. Até aceitar que não iria usar.

E guardei essa lição: É melhor enfrentar!

Para Andréa



para andréa
(reginahelena)

tão pequenina, meu anjo, onde andas?
te vi tão pouco, apenas um momento
e então, te levaram para longe de mim.

precisavas respirar e eu,
ali fiquei, olhando o teu vulto e sem saber,
que era para nunca mais te ver.

céus, estrelas, outras dimensões,
universos paralelos, dobras no tempo e,
quem sabe em um momento, ainda aqui,
se abra uma portinha, meu amor...

...e a gente possa te ver mais uma vez
viver o sonho, acalentar no peito,
nosso primeiro amor, que veio aqui,
como raio de luz, de intenso brilho
e se apagou.