domingo, 15 de fevereiro de 2026

Memórias de Nós dois III

                         Que pena, tão velhinha a foto. É de 1973, no dia do radialista, Jevan recebendo um presente. 


Daqui pra frente foi só sonho! Realizamos tudo. Casamos, tivemos lua de mel e de lá já voltamos para a nossa casinha alugada. De tudo tinha e a gente só devia a última parcela do guarda roupa, que Jevan pagou cantando no Carnaval de Araripina.

Por esse tempo eu nem sabia ainda que tinha tirado a sorte grande! Casei com um homem rigorosamente controlado nas finanças. Recebia o salário e repartia por semana. Tinha uma listinha de tudo que a gente gastava. Tempos depois, quando tudo já era  bom financeiramente e a gente não precisava de listinhas, e eu lembrava que, até o gás estava nela.

Um mês tinha 4 semans e outro 5. No de quatro, a gente "passava bem". No de 5, apertava o cinto. Mas foram momentos emocionantes, felizes demais. Chego até a duvidar que alguém possa ter sido mais feliz num casamento do que eu, embora a gente só tenha tida a primeira geladeira com um ano de casados e o primeiro televisor, com dois.

Todo mundo se admirava da minha adaptação a essa vida. Nunca usei enceradeira de ninguém, nem pedi pra guardar uma carne em geladeira de vizinho,  ou qualquer outra coisa. Mas era feliz. Super, Super feliz.

Como na "vida real", meu conto de fadas teve uns distúrbios no primeiro mês. Eu tinha pavor de morcego e, era só Jevan sair que entrava um. Em plena manhã, e ficava dando voltas na casa e tirando de raspão em mim. O choro começou por isso. Mas tinha também o problema de eu nunca ter tido responsabilidades de casa. Muito mal sabia fazer um arroz. Pensei que na minha casa podia ter tudo e compramos uma galinhas e  uns pássaros. Para economizar o gás, cozinhava o feijão no carvão todo dia. Sem contar que queria varrer a casa, etc.

Quando amanhecia o dia eu não sabia por onde começar, pelas galinhas que viviam num espaço de cimento, pelos pássaros com suas gaiolas pra trocar tudo, se acendia o fogão pra colocar o feijão, ou se morria de tanta agonia.

Depois de 30 dias chorando, Jevan foi no SANDU e pediu para falar com um médico. Naquele tempo, como hoje, era difícil, e o desespero dele era tão grande que ele fez um escândalo e um médico falou, manda esse louco entrar. Perguntado o motivo Jevan falou que a esposa tinha aberto o botão do choro e ele não sabia onde apertar. Voltou pra casa com uma receita de calmante e a decisão de se desfazer dos desnecessários da casa.

Aqui vem uma coisa engraçada. Jevan tinha uma madrinha e pediu pra ela ficar com nossas galinhas e a gente pegaria uma por semana até acabar. Sempre que ele chegava ela falava que uma mesa tinha quebrado e matado uma. Noutra semana, outra e assim, nosso problema acabou rapidinho!

Moramos 5 meses nessa primeira casa e aconteciam coisas estranhas. Prefiro não entrar em detalhes, mas a casa era barulhenta. Até que um dia minha vizinha me pegou na calçada e perguntou se eu nunca tinha visto nada na casa. Como assim? Me fiz de desentendida. Meio temerosa ela disse que naquela casa ninguém passava tanto tempo como nós, mesmo sendo 5 meses, por causas de coisas estranhas que aconteciam.

Já esperei Jevan na calçada e quando  contei, ele deu a volta na bicicleta e foi procurar outra. Com dois dias nos mudamos para o Bairro do Socorro, praticamente no centro da cidade. Uma casinha pequenina mas moderna, confortável. Amei os dois anos que vivemos nela.

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