domingo, 15 de fevereiro de 2026

Memórias de Nós dois. Parte II

 


 Esse era o Clube Recreativo Cedrense. Foi nele que eu vi Jevan  dançando  com uma amiga.


Continua 1967 e nós, sempre  firmes. Amadurecemos. Jevan já não escutava quando um amigo dizia que levaria a gente pra fugir e casar. O interesse agora era conseguir emprego, alguma renda que nos possibilitasse tocar a vida juntos. Ele trabalhava no Serviço de Auto Falantes da cidade e na calçada das Lojas Pernambucanas, como propagandista. Mas juntando tudo, não dava nem para sonhar com nada. Dessa forma passamos o ano. Levei o namoro muito a sério e ele tbm. Já não tinha o problema de ficar presa e ele solto, e era só felicidade. Sofrimento também, pois meus problemas de saúde continuavam os mesmos. Por nada eu passava mal, ficava de mal humor,  como já contei anteriormente. E assim, não caminhamos juntos, ele me arrastou pela vida.

Nunca entendi até hoje o porque dele saber o que eu sentia. Meu Pai me ameaçou até de me bater se eu não contasse o que era, isso no tempo das convulções. Era o desespero. Nunca nos bateu. Mas Jevan, só bastava olhar pra mim pra saber que eu estava em grande sofrimento. Devo dizer que, nem eu mesmo sabeia relatar o que sentia. Depois que passava, não conseguia lembrar como era e, se conseguisse, sentia novamente. Então era melhor nem pensar.

A minha Mãe, com seus 13 filhos e uma luta sem fim, sequer tomava conhecimento do meu sofrimento. Algumas vezes cheguei perto dela e falei que estava me sentindo mal, que tinha uma enorme confusão na minha cabeça e ela simplesmente dizia: -Isso é falta do que fazer, minha filha. Procure alguma coisa pra fazer que você esquece isso.

Enquanto isso, Jevan me confortava, aliviava minhas dores e conseguia me fazer feliz.

Mas não durou muito e meu pai começou a incentivar que ele fosse para o São Paulo, procurar trabalho, ou Fortaleza. E nós acabamos concordando. Em 1968, ele tinha 17 anos. Já namorávamos há 4 anos, tínhamos uma enorme intimidade e afinidade. Ele era pra mim muito mais dos que minha família e, de repente, estou só. Jamais esquecerei o dia em que ele partiu para Fortaleza. Lembro que, abraçada a ele pedi que que me prometesse jamais passar mais que 15 dias longe de mim e ele prometeu. E cumpre até hoje.

Foi muito sofrimento. A distância, o medo dele me esquecer, ou de se envolver com alguém e tivesse que casar. (Aconteceu com um amigo, e virou meu pesadelo). E para ele, foi pior ainda, pois os empregos que conseguia arranjar não valiam grande coisa. Chegou até a ser vendedor de livro. E a cada 15 dias, dormia num banco da estação de trens, pra não perder a hora pra vir me ver.

Todo dia no horário do trem, à tardinha, eu ficava na varanda da minha casa olhando. Eram poucos metros, dava pra ver quem descia e eu, na minha louca saudade, ficava imaginando que ele já ia descer. Até que o trem partia. Chorei muito nesses momentos. Em alguns dias, nessa mesma varanda eu ficava olhando os casais de namorados que passavam para a casa do nosso amigo Gláuber Alves, onde aconteciam umas tertúlias. Sonhava também que ele chegava já pra gente ir, embora eu não gostasse de festa.

Em 1969 ele já trabalhava em rádio e, num programa de calouros ganhou o primeiro lugar, concorrendo com Alcimar Monteiro. Ficou conhecido e foi convidado para ser locutor em Iguatú, numa rádio do mesmo grupo. Não era nada que desse pra arrumar nossa vida, foi nos colocou próximos novamente e o mundo virou um mar de rosas. A gente fingia que era solução, mas sabíamos que não era.

Em 1970 o mundo virou de ponta cabeça novamente. Meu pai teve dificuldades nos empreendimentos e tivemos que morar em Crato. Ele era Auditor Fiscal da Receita Estadual e estava há muitos anos afastado, sem vencimentos, por ser vereador. Assumiu o emprego, e lá vamos nós para o Crato, enquanto Jevan ficava em Iguatu.

Pelo menos nossa promessa de ficarmos juntos a cada 15 dias, se manteve, aliás, passou para semanal e a pressão familiar aumentou. Nunca pensei que ainda teria tanto pra chorar. Eles fingiam que aceitavam, mas eu sempre sabia de uma coisa ou outra que me machucava o coração.

Ainda em 1970, no final do ano Jevan foi convidado para trabalhar na Rádio Progresso de Juazeiro. Em seguida acumulou com o BIC BANCO e ficou com dois empregos e, finalmente conseguimos nos organizar para casar. Lininha casou 6 meses antes de nós e, na véspera do casamento dela, ela entrou chorando pra me contar que meu Pai estava dizendo para o namorado dela, que tinha que se conformar com o nosso casamento.

Lamento tanto colocar isso, mas aconteceu!

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